FUMAÇA MÁGICA 315

São Gonçalo dos Campos/BA

 

ADEUS, ANO NOVO

 

HUGO CARVALHO*  

 

E

 

m minha crônica anterior ao citar os versos “a gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte”, fiz referência a Gonzaguinha, dando a entender seria seu autor ou intérprete. Atenta leitora do Recife, uma das minhas noras por sinal, alertou-me ser a letra da canção “Comida” de autoria de Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sérgio Brito, interpretada pelos Titãs. Portanto, meu público agradecimento à nora pernambucana.

Devo dizer que música nunca foi meu forte, nem minha vocação. Lembro-me que em 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, estudando no Colégio São Francisco na cidade de Rio Grande, tínhamos uma disciplina denominada Canto Orfeônico. Entre outras coisas, havia os ditados musicais. Lá vinha o mestre marista, de batina preta, ditando para que registrássemos numa pauta, clave de fá, si bemol, ré sustenido, e por aí seguia a cantilena. Tínhamos que saber solfejar. Sofria horrores. Tanto quanto se hoje, tivesse que ser submetido a um ditado em grego, hebraico ou mandarim.

Confesso ter sido a única matéria na qual eu recorria à famosa “cola”. Cola que me evoca quadrinha então na moda: Escola, sem “es” é cola; escola sem cola não há; tirando a cola da escola; a turma não passará.

Portanto, entre minhas limitações muitas, sempre fui péssimo em assuntos ligados à música. Por isso as desculpas a meus leitores e leitoras, por haver confundido Gonzaguinha com os Titãs.

E já que o tema é música, avancemos. Não nutro simpatias por todos quantos levem música aos ouvidos do povo. Não, não me refiro aos que são intérpretes ou a aos que tiram acordes de instrumentos musicais. Não nutro simpatias por certa classe de políticos, hábeis no manejo “musical” das palavras, dizendo ao povo o que o povo gostaria de ouvir, não se importando se irão, ou não, cumprir suas entoadas promessas.

Dá-me um certo gosto masoquista ouvir tais cidadãos, quando inquiridos sobre seus pretensos rumos, ficar em cima do muro, aguardando a direção dos ventos para no derradeiro instante, apoiar o candidato que terá maiores chances de vencer.

Na Bahia de Todos os Santos, de Todos os Mistérios, de Todas as Crenças, de Todos os Charutos, vem sendo assim. Os oportunistas de carreira, não pertencentes ao partido político do atual Governador, candidato à re-eleição, elogiam-no e, ao mesmo tempo, acendem velas e incensos a outros contendores. O quadro, aqui na minha querida São Gonçalo dos Campos, não foge à regra.

Espertos como eles só, na orquestração da caminhada, compõem-se agradando a uns e a outros. Na hora “H”, dentro dos limites impostos pela legislação eleitoral, ouvidos os ibopes da vida, descambam com armas, bagagens, currais e paus-mandados para a banda do virtual vencedor, intitulando-se aliados da primeira hora.

Senhores que só aceitam opiniões por si ditadas costumam chamar de “caras de pau” aos que, politicamente, não rezam por suas cartilhas. Compreende-se. Ao dizê-lo estão se mirando nos espelhos de suas próprias vidas.

Valem-se dos dinheiros havidos pela dominação e pelo senhorio para se manterem na crista da onda junto ao poder. E o povão, que se informa pelas mídias por eles controladas, acha-os maravilhosos. E neles vota, perpetuando o esquema de subserviência. Até quando?

Do jeito como as coisas andam, ao menos para os que almejam que o novo ano seja ano de transformações e separação do joio do trigo, ao soar a meia noite do próximo 31 de dezembro, em vez do tradicional Adeus, Ano Velho, melhor será dizer-se Adeus, Ano Novo.

 


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HUGO CARVALHO - economista gaúcho que se fez baiano em 1965, aos 24 anos de idade. Missivista por força de ofícios quando jovem, hoje, aposentado, mata saudades do passado escrevendo crônicas.

 

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